O telefone que toca de madrugada
Ser acionado numa emergência exige separar rapidamente o que realmente vai gerar prejuízo do que só parece grave pelo susto e pelo horário. Essa clareza não nasce na hora da crise; nasce da definição prévia, em momentos calmos, do que pode esperar e do que não pode.
Já aconteceu de tocar o celular de madrugada e, antes mesmo de atender, o corpo já sabe que não é boa notícia.
Não era rotina, não era todo dia, mas de vez em quando a fábrica não para, o estoque não espera e alguma coisa quebra justamente na hora em que ninguém está por perto para resolver.
E aí, sonolento, com o cérebro ainda tentando entender a frase do outro lado da linha, você precisa decidir rápido o que realmente importa naquele instante.
Porque na cabeça de quem está ligando, tudo é urgente, tudo é grave, tudo precisa ser agora.
E parte do seu trabalho, ali, no escuro, é filtrar isso. Separar o que de fato vai gerar prejuízo se esperar mais uma hora do que só parece grave por causa do susto e do horário.
Aprendi que essa clareza não nasce na hora da ligação. Nasce antes, na forma como você já deixou claro, em algum momento mais calmo, o que pode esperar o dia clarear e o que não pode.
Porque se a prioridade só é definida no meio da crise, com todo mundo tenso e mal acordado, ela vai ser definida errado na maioria das vezes.
Não é sobre estar sempre disponível, nem sobre gostar de apagar incêndio. É sobre ter, mesmo sem perceber, treinado a cabeça para separar o que dói de verdade do que só parece doer às três da manhã.