A IA é só a bola da vez
Pânicos tecnológicos frequentemente identificam riscos reais, mas erram o ritmo, o mecanismo e os efeitos das transformações. Diante da inteligência artificial, o desafio central não é prever apenas o que será destruído, mas decidir como aproveitar o espaço que a tecnologia abrirá.
A IA é só a bola da vez
Há quase 2400 anos, Platão já escrevia sobre o medo de que uma nova tecnologia destruísse nossa memória.
É sério.
No Fedro, Platão conta a história de um deus egípcio chamado Theuth, que inventa a escrita e vai mostrar, todo orgulhoso, para o rei Thamus.
Thamus rejeita o presente na hora. Ele afirma que essa invenção vai produzir esquecimento na alma de quem aprender, porque as pessoas vão parar de exercitar a memória. Que vão confiar no que está escrito, e não mais no que sabem de dentro de si. Diz ainda que vão parecer sábias sem serem, ter a aparência de conhecimento, não a realidade.
Isso foi escrito sobre a própria invenção da escrita. A ironia não escapou nem a Platão.
Pois é. Desde então é sempre a mesma peça, só troca o ator.
Post-mortem: cada geração jura que dessa vez é diferente.
No fim dos anos 1700 um tecelão manual em Bolton, na Inglaterra, ganhava até 30 xelins por semana. Era até que um bom dinheiro para a época. Vieram os teares mecânicos e o salário derreteu: 240 pence em 1806, menos de 100 em 1820, 75 em 1830, segundo estimativas de historiadores econômicos que reconstruíram esses números décadas depois. Aqui o medo foi tão real quanto a consequência. Só que, curiosamente, o número de tecelões manuais cresceu antes de desabar, de 75 mil para 240 mil entre 1795 e 1820. A tecnologia levou décadas pra realmente destruir o ofício, bem diferente da versão simplificada que hoje reduz o ludismo (movimento social de protesto operário durante a Revolução Industrial na Inglaterra, que ocorreu entre os anos 1811 e 1816, e que era mais sobre salário e condição de trabalho do que sobre medo do futuro) a trabalhadores tentando impedir o futuro. Quando a crise chegou no auge, chegou com força: no fim dos anos 1830, uma comissão real britânica investigou a pobreza e o desemprego de uma população estimada em cerca de 400 mil tecelões manuais no país inteiro.
Certo, esse é o caso onde o medo se confirmou.
Guarda ele.
Vamos andar 200 anos mais ou menos...
O caixa eletrônico já existia desde os anos 60, mas foi só nos anos 80 que virou comum nos Estados Unidos. Em 1985, (uns 20 anos depois) havia 60 mil caixas eletrônicos e 485 mil caixas bancários trabalhando em agências. Em 2002? 352 mil caixas eletrônicos, e 527 mil caixas bancários.
Perceba: o número de caixas bancários aumentou depois do ATM, não diminuiu.
Não era isso que se esperava, mas, novamente a ironia: o caixa eletrônico barateou a operação de cada agência e, então, os bancos abriram mais agências, segundo a explicação mais aceita entre os economistas que estudaram o caso. O trabalho do caixa bancário mudou de contar dinheiro pra vender produto, atender cliente, resolver problema, mas não sumiu.
Ao pesquisar sobre isso, achei interessantíssimo: o emprego de caixa bancário só foi realmente cair décadas depois. E adivinha, foi por causa do caixa eletrônico? Não, foi principalmente o aplicativo do banco no seu celular.
O medo estava certo sobre o resultado. Errado sobre o vilão.
Guarda esse também.
E tem o caso mais parecido com o que se fala hoje sobre IA "destruindo a cultura". Em 1975 a Time publicava que professores estavam receosos que a calculadora produzisse "uma geração de analfabetos matemáticos", incapaz de fazer conta sem depender de uma máquina. Um diretor de matemática de Massachusetts chamou o uso de calculadora em sala de "meio ridículo".
Nada disso aconteceu, ao menos não como temiam.
Estudos posteriores não confirmaram aquela catástrofe. Quando usada junto ao ensino dos fundamentos, a calculadora não prejudicou de forma geral as habilidades matemáticas, e em vários estudos até ajudou na resolução de problema e na relação do aluno com a matéria. Em meados dos anos 1980, Connecticut virou o primeiro estado americano a exigir calculadora em prova estadual.
Sinceramente! Achavam que era o fim do raciocínio. Era só o fim de uma tarefa chata.
Esse medo não acertou o resultado...
Mais um para guardar.
Antes da televisão o pânico com os filhos era com o rádio. Em 1931, Sidonie Gruenberg, que dirigia a Child Study Association of America, disse ao Washington Post que o rádio deixava os pais mais impotentes do que qualquer invasor anterior do lar, porque não dava pra trancar do lado de fora, e muito menos trancar as crianças dentro pra proteger. Uma pediatra chegou a publicar, em 1941, que boa parte das crianças que ela estudou pareciam viciadas em rádio e filme ruim, e que isso deixava marca na forma de dureza, egoísmo, até crueldade. Depois da transmissão de A Guerra dos Mundos, em 1938, que os jornais do dia seguinte descreveram como tendo espalhado pânico por todo o país (embora historiadores mostrem hoje que a audiência real foi pequena e que a imprensa da época exagerou bastante a história), um senador americano prometeu lei pra controlar esses abusos.
Coitados. Achavam que estavam vendo o fim da infância, e era só uma caixa com música e novela que os pais ainda não sabiam como conversar com os filhos sobre.
Não acertaram de verdade, né?
Guarde este também.
Mas isso tudo tem nome acadêmico. Psicóloga de Cambridge, Amy Orben, chama de "ciclo Sísifo dos pânicos tecnológicos": a sociedade entra em pânico, a ciência corre atrás tentando entender, chega tarde demais, e no meio tempo já surgiu uma tecnologia nova pra reiniciar o ciclo inteiro.
Reflexão: nem todo pânico é bobagem, e seria desonesto dizer que é. Os tecelões de Bolton sofreram de verdade. A categoria que o governo americano chama oficialmente de "processadores de texto e datilógrafos" praticamente sumiu: eram 282 mil nos Estados Unidos em 2000, e só 23 mil em 2021. Tem gente que perde o emprego mesmo, e fingir que "sempre dá certo no fim" é tão desonesto quanto o pânico em si.
Mas que tal repararmos no padrão? Muitas vezes, o medo identifica um risco real, mas erra o ritmo, o mecanismo ou os efeitos indiretos. E a profissão acaba mudando de uma forma que ninguém imaginou de início.
Lembra? O caixa bancário não morreu pelo caixa eletrônico. Morreu, décadas depois, pelo smartphone.
Pega tudo que você guardou até aqui.
- O tecelão que perdeu o emprego de verdade, mas só depois de décadas.
- O caixa bancário que não perdeu nada, até perder por um motivo que ninguém tinha citado.
- O aluno que ia virar analfabeto de matemática e, na prática, não virou.
- A criança que ia ser destruída pelo rádio e só queria ouvir novela.
Nenhum desses casos serve pra provar "fica tranquilo, sempre dá certo". Serve pra provar outra coisa: até quando o medo acerta o risco, quase nunca acerta o ritmo, nem o mecanismo, nem por onde o golpe vai vir de verdade.
Então quando alguém diz que a IA "vai acabar com os empregos" ou que "vai destruir alguma coisa importante em nós", eu lembro de Thamus rejeitando a escrita.
Errado sobre tudo ele não estava. A escrita realmente mudou como usamos a memória, mas, ao contrário do que ele pensava, isso não empobreceu o ser humano, foi o oposto: a escrita libertou espaço pra pensar coisas que a memória sozinha nunca teria segurado.
O ciclo se repete porque o ser humano sempre acha uma forma, não porque a tecnologia seja inofensiva, e às vezes não é. Mas porque ao invés de ficar elocubrando o que a tecnologia vai destruir temos que nos ocupar em encontrar o que fazer com o espaço que vai sobrar.
Com ou sem IA no horizonte a pergunta que decide se um ciclo vira tragédia ou uma página na história é "O que fazer agora?".
É a mesma história que Thamus, sem perceber, já tinha começado a escrever.