A IA está dando mais autonomia às pessoas. Estamos sabendo lidar com isso?
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A inteligência artificial está permitindo que profissionais criem suas próprias soluções, reduzindo a dependência da TI e ampliando a autonomia das áreas de negócio. Mas essa liberdade também traz novas responsabilidades de manutenção, segurança e supervisão, exigindo que as empresas repensem como apoiam os usuários e o que realmente consideram ao medir o sucesso de um investimento em tecnologia.
Uma pesquisa divulgada pela Ricoh nesta semana trouxe dois números que me chamaram a atenção.
91% dos decisores entrevistados estão confiantes de que seus investimentos em inteligência artificial entregam o valor esperado. Mas 53% dos funcionários dizem que a IA está criando dificuldades ou trabalho adicional na rotina.
São grupos diferentes, respondendo a perguntas diferentes, então não dá para comparar os percentuais como se um desmentisse o outro. Mas essa diferença de percepção merece alguma atenção.
E eu consigo entender os dois lados.
Uma empresa identifica uma oportunidade, aprova o investimento, contrata a solução, treina as equipes e coloca tudo para funcionar. Os indicadores começam a mostrar resultados e, naturalmente, quem tomou a decisão fica satisfeito.
Só que, do outro lado, pode ter alguém que agora precisa abrir mais uma ferramenta, copiar informações de um sistema para outro, conferir uma resposta da IA, corrigir alguma coisa e depois voltar ao processo original para terminar o trabalho.
Quanto de trabalho humano foi adicionado para que a tecnologia entregasse valor?
Na mesma pesquisa, 55% dos funcionários disseram que o tempo gasto administrando ferramentas tecnológicas prejudica sua produtividade. E 76% acreditam que seu trabalho seria mais fácil se os sistemas funcionassem melhor juntos.
Esse último número é estranho, porque já não deveria ser um problema.
Passamos décadas investindo em sistemas para integrar informações, automatizar tarefas e eliminar retrabalho. Agora estamos acrescentando ferramentas, muitas delas com IA, e corremos o risco de criar mais etapas justamente onde queríamos eliminá-las.
Mas não para por aqui, tem mais mudança acontecendo.
Quando o usuário começa a criar a própria solução
Há alguns anos, se uma área precisava de um relatório diferente, uma integração ou uma pequena aplicação, normalmente procurava a TI. Era quase que obrigatório.
Alguém precisava entender o pedido, avaliar a viabilidade, definir prioridades, desenvolver, testar e colocar a solução em produção.
Muitas vezes, uma necessidade simples entrava numa fila enorme. E não necessariamente porque a TI fosse lenta ou burocrática. É que havia muito mais demandas do que capacidade para atendê-las.
Essa sempre foi a minha realidade.
Claro que os usuários nunca dependeram exclusivamente da TI. Planilhas, macros e, mais recentemente, ferramentas de BI e plataformas low-code já permitiam criar soluções sem passar por um desenvolvimento tradicional.
A IA está levando essa possibilidade muito mais longe.
Hoje, alguém que não sabe programar pode descrever uma necessidade, conversar com uma ferramenta e conseguir um pequeno aplicativo funcionando. Pode automatizar uma tarefa, organizar informações, desenvolver um agente para uma atividade específica.
E veja como isso já aparece fora das empresas.
Temos crianças criando seus próprios jogos, experimentando personagens, regras, cenários e comportamentos com a ajuda da inteligência artificial. Coisas que antes exigiam aprender uma linguagem de programação ou dominar ferramentas mais complexas ficaram muito mais acessíveis.
Não significa que essas crianças tenham se tornado desenvolvedoras profissionais. Mas elas passaram a conseguir construir coisas que antes provavelmente ficariam apenas na imaginação.
E tem gente até publicando o que cria e cobrando por isso.
Acho isso extraordinário.
E não vejo por que seria diferente no ambiente corporativo.
Imagine alguém do Financeiro que conhece muito bem um processo e consegue criar uma automação sem esperar meses na fila de desenvolvimento. Ou uma pessoa de RH que monta uma ferramenta para organizar determinada rotina sem precisar explicar cada detalhe para um analista de sistemas.
Quem conhece o problema passa a ter mais condições de construir a solução.
Isso reduz dependências e dá autonomia a quem está na ponta, acelerando todo o processo de desenho, desenvolvimento, testes e deploy.
Sinceramente eu considero essa transferência bastante positiva.
Mas quem ficou responsável pelo que foi criado?
Agora imagine que aquela automação do Financeiro funcionou.
O profissional gostou, mostrou para os colegas e outras pessoas começaram a usar. Em pouco tempo, aquilo que nasceu para facilitar uma atividade individual passou a fazer parte da rotina de uma equipe.
Até que alguém muda uma coluna na planilha de origem. Ou uma API deixa de responder. Ou um dado vem num formato diferente e a automação produz um resultado errado.
Quem vai perceber?
Quem vai corrigir?
E quem garante que a solução não está expondo informações que deveriam permanecer restritas?
Enquanto era uma experiência individual, talvez o risco fosse pequeno. Mas, quando outras pessoas começam a depender dela, a situação muda.
O usuário que criou a solução pode acabar responsável por mantê-la funcionando, atender dúvidas, corrigir problemas e adaptar o que desenvolveu.
Só que ele continua sendo a pessoa do Financeiro, do RH, do Comercial. Seu trabalho principal não desapareceu.
Em alguns casos, aquela autonomia que permitiu resolver um problema também acrescentou uma responsabilidade que ninguém havia previsto.
Eu não estou defendendo que tudo volte a passar obrigatoriamente pela TI. Isso seria regredir, desperdiçando o que já evoluímos, desperdiçando os ganhos reais que já obtivemos.
O que preocupa é tratar a facilidade de criar como se ela eliminasse a necessidade de cuidar daquilo que foi criado.
Uma criança pode desenvolver um jogo, experimentar, errar e começar de novo. Isso faz parte do aprendizado e é desejável.
Mas uma automação usada para calcular pagamentos, movimentar dados de clientes ou apoiar decisões comerciais precisa de outro nível de cuidado.
E nem sempre quem domina o processo de negócio conhece os riscos técnicos envolvidos.
Autonomia não deveria significar abandono
A pesquisa da Ricoh traz outro dado interessante: 81% dos decisores disseram que suas organizações investem em novas tecnologias mais rapidamente do que ajudam os funcionários a aprender a utilizá-las de maneira eficaz.
Ou seja, até quem decide reconhece que existe um descompasso.
E há um detalhe adicional: 90% dos decisores afirmam que os funcionários têm orientações claras para usar ferramentas com IA de forma responsável. Entre os funcionários, apenas 66% concordam.
De novo, são percepções de grupos diferentes. Mas os números nos mostram que só dar a ferramenta e orientar não é suficiente.
Pense no profissional que descobriu como automatizar uma tarefa que fazia manualmente todos os dias.
Queremos que ele experimente, aprenda e encontre maneiras melhores de trabalhar. Se precisar abrir um chamado para cada tentativa, provavelmente perderemos a velocidade que a IA tornou possível.
Mas ele precisa saber até onde pode ir sozinho.
Que tipo de informação pode utilizar? Quando precisa envolver a TI? Quem avalia uma integração com um sistema corporativo? E o que acontece quando aquela solução deixa de ser uma experiência e começa a sustentar uma atividade importante da empresa?
Essas definições não precisam impedir a autonomia. Na verdade, podem ser justamente o que permite ampliá-la com segurança.
A TI também muda de papel nessa história.
Em vez de necessariamente construir cada pequena solução, passa a ter a oportunidade de oferecer plataformas, padrões, orientação, integração e mecanismos para que as próprias áreas desenvolvam o que precisam.
Isso pode liberar a equipe técnica para problemas mais complexos, ao mesmo tempo que aproxima a tecnologia de quem conhece a operação.
Mas exige uma mudança de comportamento dos dois lados. E um empenho que, talvez, não tenha sido feito por ambos até o momento.
A TI precisa aceitar que não será mais a única responsável por desenvolver soluções e se empenhar em orientar, em se fazer entender e apoiar. E as áreas de negócio precisam entender que autonomia também envolve responsabilidade sobre o que colocam para funcionar e se empenhar em aprender um pouco mais da área técnica e seguir as orientações e limites.
Talvez o desafio seja encontrar essa divisão sem criar outra burocracia tão pesada quanto a que estamos tentando eliminar.
E como vamos dizer se deu certo?
Voltando aos números da Ricoh.
Se a diretoria percebe valor e parte dos funcionários percebe trabalho adicional, quem está certo?
Os dois!
Uma ferramenta pode ter reduzido o tempo de atendimento ao cliente, aumentado as vendas ou permitido que uma área entregasse algo que antes nem conseguia fazer.
Ao mesmo tempo, pode ter acrescentado atividades de conferência, manutenção e correção à rotina de algumas pessoas.
Não são excludentes, são complementares.
E isso tem que entrar na avaliação do resultado.
Normalmente sabemos quanto custou a licença, quantas pessoas têm acesso, quantas utilizam a ferramenta e se o projeto foi entregue no prazo.
Quando conseguimos, medimos também o tempo economizado, a redução de custos ou o aumento de produtividade.
Tudo isso sempre importou e continua importando.
Mas, se alguém passou a gastar uma hora por dia conferindo respostas da IA, esse tempo entra na conta?
Se uma automação economizou três horas de trabalho por semana, mas exige duas horas de manutenção e correções, estamos acompanhando os dois lados?
E se uma área consegue criar suas próprias soluções e deixa de esperar semanas por uma entrega da TI, como medimos esse ganho de autonomia?
Porque ele também tem valor, mesmo quando não aparece diretamente numa planilha.
Pense numa solução que antes não seria desenvolvida porque o custo não justificava a prioridade. Agora, alguém consegue criá-la em uma tarde.
Talvez ela não economize centenas de horas. Pode ser que apenas resolva uma dificuldade que acompanhava aquela equipe havia anos.
Isso não é resultado? Creio que sim.
Por outro lado, também não podemos chamar de sucesso qualquer coisa que funcione hoje, sem considerar o que será necessário para mantê-la amanhã.
Uma aplicação que atende dez pessoas e depois passa a ser usada por quinhentas precisa continuar segura, confiável e compreensível. Se quem a criou sair da empresa, alguém precisa conseguir dar continuidade.
E se uma pessoa passa a cuidar de cinco automações além das atividades pelas quais já era responsável, será que estamos enxergando essa nova carga de trabalho?
Não há uma medida única capaz de responder a tudo isso.
Querer resumir o sucesso de algo com um indicador isolado, de um ponto de vista único, é um problema.
O resultado aparece depois da implantação
Passei mais de 27 anos trabalhando com tecnologia. Boa parte desse tempo foi dedicada a implementar sistemas, melhorar processos e encontrar maneiras de fazer as coisas funcionarem melhor.
Eu continuo acreditando nisso.
E vejo a possibilidade de cada pessoa criar suas próprias soluções como um dos avanços mais interessantes da inteligência artificial.
Não gostaria de voltar ao tempo em que alguém precisava esperar semanas para conseguir uma mudança simples num relatório. Fora os conflitos que isso gerava.
Mas também não gostaria de ver profissionais assumindo, sem perceber, uma segunda função como desenvolvedores, operadores e responsáveis pela manutenção de ferramentas que criaram para facilitar seu trabalho.
Agora é a oportunidade de repensar uma nova divisão de responsabilidades.
Nem a TI precisa fazer tudo e nem o usuário precisa resolver tudo sozinho.
Podemos criar condições para que as pessoas tenham mais liberdade, consigam experimentar e resolver problemas sem perder o apoio técnico necessário quando a solução crescer ou se tornar importante. E, principalmente, podemos acompanhar o que acontece depois.
Se a tecnologia trouxe mais autonomia, vamos reconhecer como resultado. Se eliminou trabalho, também. Se eliminou retrabalho, melhor ainda.
Mas, se criou novas tarefas, exige manutenção constante ou transferiu riscos que ninguém está preparado para administrar, isso tem que entrar na conta.
A pesquisa da Ricoh não demonstra que todos esses problemas sejam causados pela transferência de responsabilidades para os usuários. Ela mostra percepções diferentes sobre o valor e as dificuldades das tecnologias no ambiente de trabalho.
Serve principalmente para refletirmos sobre como estamos lidando com essa mudança.
Medimos bem a tecnologia que entregamos, mas ainda não tão bem o trabalho que ela modificou.
Depois que entregamos, quem mede o trabalho que o sistema ainda exige? E quanto vale a autonomia que ele proporcionou?
Fonte: Ricoh — 2026 Workplace Technology Adoption Gap, divulgado em 21/10/2026. Pesquisa realizada em setembro de 2026 com 2.017 profissionais dos Estados Unidos e do Canadá, sendo 1.511 funcionários e 506 decisores. Os resultados são percepções declaradas pelos entrevistados, não medições diretas de retorno financeiro ou produtividade.
Por Alexandre Aschenbach · 28 de outubro de 2026
https://aschenbach.com.br/blog/a-ia-esta-dando-mais-autonomia-as-pessoas-estamos-sabendo-lidar-com-isso