Dado indisponível
Uma carta escrita à mão por um funcionário de 89 anos tornou visível não apenas uma história de luto e recomeço, mas também a raridade de um gesto que praticamente desapareceu. Às vezes, a forma chama atenção justamente porque se tornou incomum, enquanto histórias igualmente humanas passam despercebidas em mensagens digitais.
Há alguns dias assisti uma live da Grupo Panvel, em parceria com a Maturi, sobre o programa Geração 50+. Lívia Garcia Sales Moraes, Diretora de Gente e Cultura da Panvel, contou uma história que não saiu da minha cabeça.
Ela contou que, certo dia, uma carta chegou para o presidente da Panvel, e a carta não era um currículo. Era um agradecimento. Quem escreveu tinha 89 anos, tinha acabado de perder a esposa, e a Panvel tinha dado a ele exatamente o que ele foi buscar: uma atividade, algo que preenchesse o tempo. Ele já estava lá dentro, trabalhando, e escreveu à mão pra contar um pouco da sua história, o que tinha vivido, o que aquilo significava.
E aí, no meio da fala, veio o detalhe que a Livia repetiu, sem querer sublinhar nada, só porque ficou marcado: "Era uma letra linda."
De novo: "era uma letra linda."
E eu não decidi falar sobre a Panvel ou sobre o programa Geração 50+, por mais que mereçam. Decidi falar sobre a carta. Ela guarda uma pegadinha que eu só entendi depois de parar pra pensar.
Quando foi a última vez que você recebeu uma carta escrita à mão? Foi há muito tempo, né? Ou nunca. E se a pergunta for sobre alguém de 30 anos escrevendo essa carta, a resposta é mais simples ainda: não vai acontecer.
Currículo? Vem em PDF. Agradecimento?
Vem em mensagem de WhatsApp, no máximo um e-mail bem escrito.
Ninguém nunca vê a letra de quem tem 30 anos hoje, porque ela simplesmente não circula. Não existe como "dado disponível".
Então a letra do senhor de 89 anos não ficou bonita por comparação com uma letra feia. A letra dele foi notada porque foi a única letra que apareceu. Ninguém estava competindo com ele. Ele foi, sem querer, a última prova física de uma época em que se escrevia à mão pra dizer algo que importava.
A carta falava de luto, falava de recomeço, falava de um homem que só queria um motivo pra levantar de manhã... mas o que a live registrou e que ficou fácil de contar pro público foi a moldura. Não por indiferença, por raridade mesmo: a moldura é rara, o conteúdo, esse a gente já ouviu de outras milhares de formas.
O que eu queria saber é quantos outros agradecimentos como esse já passaram batido, sem live nenhuma pra contar, só porque vieram digitados e ninguém achou que a fonte Calibri merecia ser mencionada.
A letra do senhor de 89 anos era linda, sim.
Mas ele não escreveu pra pedir uma chance.
Escreveu pra agradecer por já ter recebido uma.
Parabéns Livia pela sensibilidade. Parabéns Grupo Panvel pela iniciativa.
Parabéns Livia e o Grupo Panvel pela sensibilidade.
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