Procura-se júnior com dez anos de bagagem
Vagas classificadas como "júnior" frequentemente exigem domínio técnico e experiência prévia próprios de um cargo sênior, um espelho do etarismo às avessas que já foi batizado de juvenilismo. A empresa termina terceirizando ao mercado a formação de talento que deveria oferecer internamente.
Vaga classificada como "júnior". A descrição pede o domínio de três ferramentas diferentes, dois anos de experiência prévia na área, inglês fluente e "perfil proativo, capaz de liderar iniciativas".
Já viu vaga júnior parecendo currículo de quem já é sênior?
Isso não é exceção, virou padrão. E tem relação direta com o tal do juvenilismo, esse etarismo ao contrário que despreza quem tem vinte e três anos do mesmo jeito que sempre desprezou quem tem cinquenta e cinco. As pesquisas mostram que quase metade dos empregadores acha o candidato jovem "despreparado". Só que despreparado pra quê, exatamente, se a vaga já pede know-how que só se constrói trabalhando?
Verdade seja dita, todo mundo que já contratou sabe: formar gente dá trabalho. Trabalho de verdade, chato, sem glamour nenhum.
Então a empresa, em vez de formar, terceiriza a formação pro próprio mercado. Escreve a vaga pedindo alguém que já chegue pronto, já treinado por outra empresa, com a experiência que ela mesma não quis oferecer a ninguém.
E, coitado do candidato de vinte e três anos, ele nem teve chance de errar em lugar nenhum ainda, porque ninguém abriu essa vaga pra ele.
Tem muita gente usando IA para escrever descrição de cargo, é ruim. Mas tem gente copiando modelo antigo, sem parar pra pensar se aquele nível de exigência faz sentido pra quem está começando.
Sugestão para as empresas: contrate júnior pra formar sênior. Não peça sênior barato usando a palavra júnior no título.
E, se quiser sênior, então contrate como sênior, ganhando como sênior.
Não acho que seja difícil de entender.