Quando a empresa mede até o menor erro, o que acontece com as pessoas?
Compartilhar
Uma operadora de caixa na Austrália recebeu uma advertência formal após um sistema identificar uma taxa de erros de apenas 0,18%. O caso levanta uma discussão sobre os limites do monitoramento no trabalho, a interpretação dos indicadores e o risco de avaliar pessoas como se fossem máquinas.
Uma operadora de caixa de supermercado recebeu uma advertência formal por apresentar uma taxa de erros de 0,18%.
É isso mesmo, você não leu errado. Ela acertava aproximadamente 99,82% dos produtos que passavam pelo caixa.
O caso aconteceu na Austrália e foi relatado por um sindicato ao Parlamento, segundo reportagem do The Guardian. Um sistema de monitoramento com inteligência artificial identificou os erros e a funcionária acabou recebendo uma advertência escrita final.
Entenda, para mim é claro que um supermercado precisa controlar erros no caixa. Produto que passa sem registro é prejuízo, divergência no pagamento gera reclamação, e uma operação desse tamanho precisa de indicadores para funcionar bem.
Até aí não vejo nada de errado.
Mas a questão está na medição. Os 0,18% são muito ou pouco?
Depende. Qual era a taxa aceitável? Como estava o desempenho dos demais operadores? Os erros eram recorrentes, tinham alguma característica em comum ou aconteceram em situações diferentes?
E o impacto? Quanto os 0,18% representam em dinheiro? Qual o prejuízo real?
E, principalmente, alguém conversou com a funcionária para entender o que estava acontecendo?
Uma coisa é o sistema identificar que, entre milhares de produtos, alguns foram registrados incorretamente. Outra é alguém olhar para esse número e concluir que a pessoa merece uma advertência.
Nós passamos anos implementando sistemas para conseguir medir melhor as operações. Eu sempre defendi isso: informação de qualidade dá suporte a melhores decisões.
Só que agora conseguimos medir coisas que antes passavam despercebidas. Um erro pequeno, um atraso de segundos, uma pausa fora do padrão, uma diferença mínima de produtividade.
E aí começamos a correr o risco de tratar qualquer desvio identificado como algo que precisa ser corrigido.
E, perigoso, medir o ser humano como se fosse uma máquina.
Imagine trabalhar o dia inteiro sabendo que cada pequeno erro será registrado, comparado e poderá aparecer numa avaliação de desempenho.
Será que isso melhora o trabalho? Será que colabora para um bom ambiente de trabalho? Será, ainda, que gera mais ou menos stress?
Ou isso faz com que as pessoas passem a trabalhar mais preocupadas em não errar do que em atender bem?
Não conhecemos todo o histórico dessa funcionária, então não dá para afirmar se a advertência foi justa ou injusta.
Mas, segundo o relato sindical, ela sequer conhecia a taxa de erros que seria considerada aceitável.
E isso me causa um grande incômodo.
A empresa conseguiu medir os erros com duas casas decimais, mas aparentemente não conseguiu explicar à funcionária qual era o desempenho esperado dela.
Qual era a taxa de erros aceitável, afinal?
Fonte: The Guardian Australia, 19/10/2026.
Por Alexandre Aschenbach · 27 de outubro de 2026
https://aschenbach.com.br/blog/quando-a-empresa-mede-ate-o-menor-erro-o-que-acontece-com-as-pessoas