Quando a empresa perde a conta dos próprios agentes de IA
A multiplicação de agentes de IA dentro das empresas cria um problema de governança quando ninguém consegue dizer com clareza quantos existem, quem é responsável por eles, quais acessos possuem e se ainda deveriam estar ativos. Inventário centralizado, proprietário definido, permissões controladas e ciclo de vida formal passam a ser exigência básica, não detalhe operacional.
A empresa tem mais agentes de IA do que consegue contar.
A Gartner projetou que, até 2028, uma empresa média da Fortune 500 vai operar mais de 150 mil agentes de IA.
Cento e cinquenta mil.
Em 2025 eram menos de quinze.
Confesso que reli o número porque achei que tinha entendido errado. Sim, está certo: 150.000.
E o que chama mais a atenção é que apenas 13% das organizações acreditam ter hoje a governança adequada para administrar isso.
A IBM encontrou um problema parecido por outro caminho: só 18% das organizações mantêm um inventário atual e completo dos agentes que já possuem.
Veja se reconhece a cena.
O Marketing criou um agente para conteúdo, depois outro para analisar campanha. O Financeiro montou um para conciliação. RH contratou uma plataforma que já trouxe alguns embutidos. TI fez um piloto, uma área gostou e copiou. Alguém criou mais um para resolver uma necessidade específica...
Um por um, todos pareciam fazer sentido.
E quando alguém perguntar quantos agentes de IA a empresa tem funcionando… silêncio.
Quem é o dono de cada agente, a quais sistemas ele tem acesso, quais dados consegue consultar? Quem percebe se um deles começou a fazer algo que não deveria?
E aquele agente criado seis meses atrás para um projeto que acabou, continua rodando?
Pois é...
Já discutimos bastante “Shadow AI”, aquele uso de IA que acontece fora do radar da empresa. Eu mesmo já escrevi sobre isso.
Agora, “Agent Sprawl” tem uma pegadinha diferente: boa parte da bagunça pode ter passado pela porta da frente.
O agente foi criado para resolver uma necessidade legítima, alguém aprovou, funcionou e ficou.
Depois veio outro.
E outro.
Eu já aprovei tecnologia pensando muito mais em resolver o problema daquele momento do que em quem cuidaria dela um ano depois.
Quando falamos de agente de IA essa pergunta fica ainda mais importante, porque ele não fica simplesmente ocupando uma licença esquecida.
Ele pode continuar acessando dados, chamando sistemas, tomando ações.
Talvez por isso uma das recomendações da própria Gartner seja tão pouco sofisticada e tão necessária: mantenha um inventário centralizado dos agentes e defina proprietário, permissões e ciclo de vida.
Parece básico, né?
Também parecia básico saber quantos servidores tínhamos, quantos sistemas estavam em produção, quantas integrações existiam...
Até alguém precisar descobrir.
Ou até algo dar errado.
Daqui a pouco talvez a pergunta "quantos agentes temos?" seja tão normal quanto perguntar quantos sistemas estão em produção ou quantas licenças temos.
Só que, hoje, eu não apostaria que toda empresa consegue responder.