Quando a universidade e a indústria trabalham no mesmo problema
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O modelo da Universidade SENAI CIMATEC aproxima formação acadêmica, pesquisa aplicada e problemas reais da indústria. A experiência abre uma discussão sobre como empresas e universidades podem compartilhar a responsabilidade de preparar profissionais sem limitar a educação às necessidades imediatas do mercado.
Uma universidade brasileira dedica cerca de 80% de suas atividades a projetos tecnológicos, muitos deles desenvolvidos para empresas. Os outros 20% correspondem ao ensino.
Foi o que mais me chamou atenção numa reportagem da Folha sobre a Universidade SENAI CIMATEC, de Salvador, que estreou no Ranking Universitário Folha de 2026 em 18º lugar entre as instituições privadas e 83º no ranking geral.
O interessante é que estamos falando de uma universidade que mantém laboratórios, pesquisa, cursos de graduação, mestrado e doutorado, mas que também trabalha diretamente com problemas da indústria.
Isso tem um paralelo com discussões dentro da empresa.
Quantas vezes reclamamos que um profissional sai da faculdade sabendo muita teoria, mas com dificuldade para lidar com os problemas que encontra quando começa a trabalhar?
Aí contratamos alguém recém-formado e esperamos que ele entenda processos, equipamentos, sistemas, restrições de orçamento, prazos e todas aquelas particularidades que não aparecem nos livros.
Só que boa parte desse conhecimento se constrói justamente enfrentando problemas reais, tentando resolver, errando, discutindo alternativas e entendendo por que uma solução funciona num contexto e não funciona em outro.
É interessante pensar num estudante participando de um projeto em que uma indústria precisa melhorar um processo de produção, reduzir desperdícios ou resolver uma limitação técnica que seus próprios engenheiros ainda estão investigando.
Ele terá que aplicar o que aprendeu, mas também perceber o quanto ainda precisa aprender.
E o professor também ganha contato com problemas que talvez não aparecessem numa pesquisa desenvolvida sem essa aproximação.
Claro que não é tão simples. E uma Universidade não pode virar simplesmente um centro de treinamento para as necessidades imediatas das empresas.
A indústria precisa resolver o problema de hoje, e faz sentido que esteja preocupada com isso. Mas alguém também precisa pesquisar aquilo que ainda não tem aplicação conhecida, questionar o que fazemos atualmente e desenvolver conhecimentos que talvez só encontrem utilidade daqui a muitos anos.
A formação precisa preservar o espaço do futuro e tratar do espaço do agora.
O que me interessa no caso do CIMATEC é justamente a possibilidade de aproximar esses mundos sem precisar escolher um ou outro.
Em muitos anos trabalhando com tecnologia, nunca tive a oportunidade de participar de uma experiência assim, envolvendo empresas e universidades na solução conjunta de problemas reais.
Talvez essas iniciativas sejam mais comuns do que eu imagino, mas, pelo menos nos ambientes em que trabalhei, nunca fizeram parte da rotina. E acho uma pena, porque oportunidades para essa aproximação certamente não faltam.
Nós, nas empresas, costumamos cobrar que as universidades formem profissionais mais preparados para o mercado. Mas quantas vezes abrimos nossas portas, nossos laboratórios e, principalmente, nossos problemas para que professores e estudantes participem de verdade?
Contratar estagiários e financiar pesquisas é uma alternativa válida.
Mas podemos fazer muito mais se deixarmos de apresentar apenas uma vaga para quem está aprendendo e começamos a apresentar problemas que ainda não sabemos resolver.
Formar profissionais capazes de melhorar o que fazemos amanhã depende das oportunidades que oferecemos para eles hoje.
Fonte: Folha de S.Paulo — Ranking Universitário Folha 2026, reportagem sobre a Universidade SENAI CIMATEC.
Por Alexandre Aschenbach · 29 de outubro de 2026
https://aschenbach.com.br/blog/quando-a-universidade-e-a-industria-trabalham-no-mesmo-problema