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Quando tudo é urgente, nada é prioridade

23 de setembro de 2026 • 2 min de leitura

Priorizar exige escolher o que vem primeiro e aceitar que outras entregas precisarão esperar. Quando tudo recebe tratamento de urgência sem ajuste de prazos e capacidade, a gestão apenas transfere pressão para quem executa.

Quando tudo é urgente, nada é prioridade

“Preciso disso hoje.”


“Isso virou prioridade.”


“Pausa o que você está fazendo e pega isso primeiro.”


Nada muito absurdo, isoladamente.


O problema começa quando esse tipo de frase aparece em praticamente todos os dias.


Em 2025, foram registrados 6.985 afastamentos por “burnout” no Brasil. E seria irresponsável dizer que “burnout” acontece porque alguém marcou uma tarefa como urgente, claro que não é assim.


Mas eu acho difícil ignorar o efeito de trabalhar meses num ambiente onde tudo chega com o mesmo peso.


Cliente parado? Urgente.


Sistema indisponível? Urgente.


Relatório que ninguém pediu na semana passada, mas alguém resolveu querer amanhã cedo? Urgente também.


Depois de algum tempo, ninguém sabe mais distinguir o que realmente não pode esperar daquilo que só está atrasado, mal planejado ou mal comunicado.


E o curioso é quando o gestor muda a prioridade, mas não muda o restante.


“Para tudo e faz isso agora.”


Tá bom.


Mas o prazo das outras três entregas continua igual.


Pois é... aí não houve priorização nenhuma.


Só colocaram mais pressão em cima da mesma agenda.


Eu já fiz isso como gestor. Pedi uma coisa com pressa, depois apareceu outra mais importante, depois uma terceira entrou na frente e, olhando cada pedido separadamente, todos pareciam fazer sentido.


Só que quem recebia não trabalhava em pedidos separados.


Trabalhava numa agenda só.


Esse detalhe muda bastante a conversa.


Porque definir prioridade também exige aceitar consequência. Se uma tarefa passou na frente, alguma outra precisa ir para trás. Se nada pode ir para trás, então nada foi priorizado de verdade.


Eu trabalhei muitos anos com operação e sei perfeitamente que urgência real existe. Sistema cai, cliente para, fábrica não espera, tem problema que precisa ser resolvido agora.


Talvez por isso me incomode tanto quando tudo recebe o mesmo tratamento.


Se o alarme toca o dia inteiro, chega uma hora em que ninguém sabe mais se está acontecendo alguma coisa grave ou se aquele já virou apenas o som normal do escritório.


Pode gritar.


Ninguém vai mais escutar.