Quem vai liderar depois do achatamento?
A IA permite reduzir camadas de gestão e ampliar a autonomia, mas o corte excessivo da gerência média pode eliminar justamente o espaço onde futuros líderes aprendem a decidir, desenvolver pessoas e assumir responsabilidade. A economia aparece agora; a falta de sucessores pode aparecer alguns anos depois.
A Block cortou mais de quatro mil pessoas este ano, quase metade da empresa, e depois explicou como pretende funcionar com uma estrutura muito mais achatada.
Basicamente, três papéis:
- quem executa;
- o DRI (“Directly Responsible Individual”), que assume uma decisão ou problema de ponta a ponta;
- o “player-coach”, alguém que continua fazendo o trabalho e, ao mesmo tempo, desenvolve pessoas.
E o gerente cuja principal função era coordenar, repassar informação, acompanhar status? Esse espaço diminuiu bastante.
E, sinceramente, dá pra entender a conta.
Se a IA acompanha a tarefa, consolida a informação, prepara o relatório, mede o desempenho e permite que cada gestor tenha mais gente respondendo diretamente a ele, por que manter tantas camadas no organograma?
Mas, se for assim, onde vai aprender a liderar quem deveria ocupar a diretoria daqui a três anos?
Porque o gerente médio não passa o dia inteiro repassando status. Se isso acontece, é porque, em algum momento, a empresa permitiu que o cargo se resumisse a isso.
Na verdade, é nessa posição que se aprende, pela primeira vez, a contratar, demitir, corrigir uma decisão ruim, lidar com conflito, desenvolver um júnior, negociar recursos com outra área e explicar para a diretoria por que a meta não fechou.
Ou você conhece outro lugar onde se aprende isso de verdade?
Eu não.
Curso ajuda, mentoria ajuda, IA pode ajudar bastante, mas liderança se aprende mesmo quando a decisão tem consequência e alguém olha pra você esperando uma resposta.
Pois é... justamente essa camada está sendo espremida.
A Gartner já previa que, até 2026, uma em cada cinco empresas usaria IA para achatar sua estrutura e eliminar mais da metade das posições atuais de gerência média.
Agora veio a parte interessante: neste mês, setembro de 2026, a própria Gartner fez outra previsão. Até 2029, 30% das funções eliminadas por substituição por IA terão de voltar de alguma forma, muitas vezes com custo maior, porque cortes profundos demais levam embora conhecimento e esvaziam o pipeline de talentos.
Eu já vi empresa perceber tarde demais que formar liderança leva muito mais tempo do que preencher uma cadeira.
Basta uma reunião para cortar uma camada do organograma, mas leva anos para formar alguém que possa, com competência, ocupar as cadeiras acima dela.
Provavelmente a conta do “Great Flattening” não apareça na folha de pagamento de 2026, mas vai aparecer quando alguém perguntar quem está pronto para assumir a próxima cadeira.
A resposta?
Silêncio.