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Sobrou tempo, não sobrou gente.

16 de setembro de 2026 1 min de leitura

A tecnologia devolveu parte do tempo perdido em deslocamento e burocracia, mas não garantiu com quem esse tempo seria compartilhado. A epidemia de solidão, agravada entre os mais jovens, mostra que tempo livre sozinho não resolve o que a promessa da eficiência prometia resolver.

Sobrou tempo, não sobrou gente.

Prometeram que a tecnologia ia devolver tempo livre pra gente viver.


E devolveu, em parte: menos deslocamento, menos hora perdida no trânsito, agenda mais flexível que há uma década.


Só que ninguém disse o que a gente ia fazer com esse tempo e muito menos garantiu que teria com quem fazer.


Tempo livre sozinho em casa não é a mesma coisa que tempo livre em comunidade. E é exatamente aí que mora o problema que a estatística da solidão mostra: mais tempo disponível, menos gente por perto pra usar esse tempo junto.


Conhece alguém que ganhou horas livres na semana e não soube, de verdade, o que fazer com elas além de abrir outra tela?


O sociólogo Robert Putnam já tinha descrito isso décadas atrás, antes de qualquer IA existir: a gente foi trocando, pouco a pouco, boliche em grupo por boliche sozinho, clube social por streaming, vizinho de rua por feed de notificação. A tecnologia só acelerou um movimento que já vinha de antes.


E agora, com os robôs fazendo tarefa doméstica e a IA escrevendo relatório, vamos ganhar ainda mais tempo livre.


Eu pergunto: "tempo livre prá que?" "tempo livre com quem?"


Porque se a resposta continuar sendo "livre pra ficar sozinho, só que com mais eficiência", a gente não resolveu nada.


Só automatizou a solidão.