Filhos crescendo
E se o seu filho crescer sem precisar fazer metade das coisas que você fez?
Não sei se será metade.
Talvez seja menos, talvez mais...
Mas acho interessante imaginar que algumas coisas que hoje consideramos absolutamente normais possam parecer estranhas para uma criança daqui a alguns anos.
Passar horas no trânsito para trabalhar ou executar a mesma tarefa centenas de vezes.
Organizar quase toda a vida em torno do horário comercial e esperar o sábado para finalmente ter tempo.
Não estou dizendo que nossos filhos não vão trabalhar.
Provavelmente vão. Ou talvez não.
Também não estou dizendo que a tecnologia automaticamente vai entregar a eles todo o tempo que conseguir economizar. Já sabemos que produtividade não funciona assim.
Mas existe uma possibilidade.
Máquinas e sistemas podem assumir uma parcela cada vez maior daquilo que hoje consome nosso tempo porque precisa ser feito, não porque alguém realmente gostaria de fazê-lo.
Se uma parte desse ganho chegar até a próxima geração, talvez ela enfrente um problema diferente daquele que enfrentamos.
Nós passamos boa parte da vida tentando administrar a falta de tempo. Eles, em contrapartida, talvez precisem aprender o que fazer quando sobra.
E isso parece simples até observarmos o que nós mesmos fazemos quando aparecem cinco minutos vazios.
Pegamos o celular.
Preenchemos.
Ocupamos.
Transformamos cada espaço em alguma coisa.
Talvez algumas habilidades que tratamos como secundárias fiquem mais importantes.
Criar sem transformar tudo em produto.
Fazer alguma coisa apenas por curiosidade.
Conviver sem agenda.
E tem uma razão muito concreta para eu estar pensando nisso agora.
Minha filha já acha estranhas várias coisas que faziam parte do meu cotidiano quando eu era jovem.
Foi justamente ela quem entrou no meio desta conversa e perguntou: "Pai, mas e quem nasce agora?"
Pois é.
Passei vários posts pensando no que nós faremos se a tecnologia nos devolver tempo.
Talvez eu estivesse olhando para a geração errada.
Quem nasce agora pode crescer sem nunca considerar inevitáveis algumas das coisas que nós passamos a vida tentando administrar.
Talvez nunca conheçam algumas delas.
E talvez precisem aprender algo que quase ninguém ensinou para nós: o que fazer com o tempo quando ele finalmente existe.
Ou talvez não.
Talvez eles já nasçam sabendo.






