Preparando as crianças
Desde cedo, a gente pergunta para uma criança o que ela quer ser quando crescer.
Quase sempre a gente espera o nome de uma profissão.
Cantora. Médico. Engenheira. Professor. Programadora. Bombeiro. Policial.
É curioso como aprendemos a tratar "o que você faz" quase como sinônimo de "quem você é".
Acho que isso não gerou muitas dúvidas, quase sempre fez sentido.
Até agora.
O trabalho não nos dá apenas renda. Ele define rotina, ocupa o dia, cria relações, oferece reconhecimento e, para muitos, ajuda até a construir identidade e propósito.
Só que estamos entrando em um período em que máquinas devem assumir uma parcela cada vez maior do trabalho necessário.
Não significa que seja o fim do trabalho.
As profissões continuarão existindo. E, creio, continuarão sendo importantes. Mas talvez elas deixem de carregar sozinhas tudo aquilo que colocamos sobre elas.
E aí aparece o problema.
Se uma criança tiver no futuro mais tempo fora do trabalho do que nós tivemos, para o que exatamente estamos preparando essa criança hoje?
Aprender a ler, escrever, calcular, trabalhar e produzir continuará sendo fundamental.
Mas talvez não seja o suficiente.
Talvez também seja preciso aprender a criar sem transformar tudo em produto.
Viver.
Conviver.
Cuidar de alguém.
Fazer parte de uma comunidade.
Construir amizades.
Descobrir alguma coisa simplesmente porque aquilo despertou curiosidade.
E saber o que fazer com o próprio tempo.
Principalmente isso.
Hoje, preparar alguém para o futuro não é tão somente prepará-lo para o mercado de trabalho. É prepará-lo para uma vida em que o trabalho talvez já não explique tudo.
Pode ser que a identidade e o propósito tenham que vir de outro lugar.
Qual?
Também não sei.
Talvez já tenhamos passado da hora de pensar sobre isso.







